- Vamos cantar “Parabéns”?, grita a mãe do aniversariante.
Os convidados, após alguns momentos, se aglomeram em volta da mesa do bolo, as luzes se apagam e todos cantam em celebração a mais um ano de vida daquela pessoa.
No escuro, não são apenas as velas que brilham – flashes disparam inúmeras vezes, enquanto as pessoas que seguram suas câmeras tentam capturar aquele momento precioso de alegria com os amigos. A música termina, os convidados aplaudem, as velas são sopradas e um pedido é feito. As luzes se acendem, o bolo é cortado, os convidados se dispersam e as câmeras são guardadas. O que resta desse momento são apenas fotos que hão de ser reveladas – ou não, apenas armazenadas num computador.
Quando se tem paixão por fotografia, ou se vai a (ou se mora em) algum lugar lindo, em que até a viradinha da esquina é digna de fotos, dá pra entender a obsessão que acabamos desenvolvendo com aquelas pequenas máquinas “congeladoras” de tempo. É claro que queremos preservar nossos momentos mais preciosos pra, daqui a algum tempo, olharmos pra trás e nos relembrarmos. E não há nada de errado com esse desejo universal e eterno de querer parar a vida naquele momento.
Mas, pensando bem, se objetivo da fotografia é guardar um momento presumidamente importante, então porque é que desperdiçamos esses momentos tentando fotografá-los? Quantas daquelas pessoas tirando fotos do “Parabéns Pra Você” estão na verdade aproveitando aquela ocasião? Acabamos por não desfrutar tanto aquele instante importante só para podermos relembrá-lo depois! Alguém mais enxerga a ironia disso?
Quantas vezes não apreciei tanto um pôr-do-Sol quanto podia só porque queria capturá-lo em fotos? Quantos lugares a beleza estonteante não foi assim tão percebida só porque eu não queria correr o risco de me esquecer deles depois? Quantos dias com os amigos foram encurtados só pra que eu tivesse memórias palpáveis dali a algum tempo? Quantos momentos que eu queria eternizar passaram ainda mais rápido só por causa desse mesmo desejo?
Se eu vou parar de tirar fotografias depois de ter percebido essa ironia? É claroque não. Até porque com essas nossas lembranças que se deterioram tão facilmente, as únicas coisas que permanecem são as memórias de papel. Mas que daqui pra frente eu só vou tirar uma foto depois de ter aproveitado o momento até cansar (e sei que muitas vezes vou até acabar deixando de conseguir uma foto fantástica por isso), ah, eu vou! Afinal, de que adianta preservar um momento importante que nem foi devidamente apreciado? Mais vale uma memória verdadeira de um instante devidamente vivido – mesmo que essa lembrança acabe se esvaindo com o tempo – do que a prova real de uma memória que nem foi assim tão valorizada.

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